Tuesday, November 07, 2006
Wednesday, October 12, 2005
Roleta Russa
por R. Balbi
Me diz a mando de quem vieste, agonia? Me confessa teu serviço ou torturo-te a mim até um de nós morrer. Vamos brincar de roleta russa, apenas uma - não - duas balas no revólver, de cano ainda frio, apontado para a minha testa. Olho a cena no espelho, aperto os olhos, trinco e esfrego tanto os dentes que eles gemem. Puxo o gatilho e nada, nada acontece com a minha vida, puxo novamente e tudo continua estático. Agonia gargalha, faralha e bufa gorda, cheia de si, babando gordurosa de tanta troça. Não me teme a agonia. Puxo o gatilho e ela ri mais alto. Tampo meus ouvidos, deixo a arma sobre o mármore da pia, grito mais alto do que zomba a agonia mas não adianta. Queria meus miolos entupindo o ralo, mas não! Agonia ri de mim e agora começo a rir dela em retorno. Pego de novo a arma, restam um buraco vazio e duas balas apontadas para minha cabeça. Não tenho coragem de puxar o gatilho. Ainda não.

Ai Meu Deus!
por Rufus
Ai meu Deus, quanto drama! Oh, vou me matar! Donzela não se mata, Balbi, coloca as costas da mão na testa e desmaia - "Oh!!". Eu uso roleta russa pra me divertir. Já você usa pra fazer drama. Dramalhão, na verdade, e da pior qualidade. Devia ter te explodido a cabeça de primeira, ia ser muito mais gozado.
Me diz a mando de quem vieste, agonia? Me confessa teu serviço ou torturo-te a mim até um de nós morrer. Vamos brincar de roleta russa, apenas uma - não - duas balas no revólver, de cano ainda frio, apontado para a minha testa. Olho a cena no espelho, aperto os olhos, trinco e esfrego tanto os dentes que eles gemem. Puxo o gatilho e nada, nada acontece com a minha vida, puxo novamente e tudo continua estático. Agonia gargalha, faralha e bufa gorda, cheia de si, babando gordurosa de tanta troça. Não me teme a agonia. Puxo o gatilho e ela ri mais alto. Tampo meus ouvidos, deixo a arma sobre o mármore da pia, grito mais alto do que zomba a agonia mas não adianta. Queria meus miolos entupindo o ralo, mas não! Agonia ri de mim e agora começo a rir dela em retorno. Pego de novo a arma, restam um buraco vazio e duas balas apontadas para minha cabeça. Não tenho coragem de puxar o gatilho. Ainda não.

Ai Meu Deus!
por Rufus
Ai meu Deus, quanto drama! Oh, vou me matar! Donzela não se mata, Balbi, coloca as costas da mão na testa e desmaia - "Oh!!". Eu uso roleta russa pra me divertir. Já você usa pra fazer drama. Dramalhão, na verdade, e da pior qualidade. Devia ter te explodido a cabeça de primeira, ia ser muito mais gozado.
Saturday, October 08, 2005
Uísque e mulher ranzinza
pelo Barão de Itararé
"Eu tinha doze garrafas de uísque na minha adega e minha mulher me disse para despejar todas na pia, porque se não...
- Assim seja! Seja feita a vossa vontade, disse eu, humildemente. E comecei a desempenhar, com religiosa obediência, a minha ingrata tarefa.
Tirei a rolha da primeira garrafa è despejei o seu conteúdo na pia, com exceção de um copo, que bebi.
Extraí a rolha da segunda garrafa e procedi da mesma maneira, com exceção de um copo, que virei.
Arranquei a rolha da terceira garrafa e despejei o uísque na pia, com exceção de um copo, que empinei.
Puxei a pia da quarta rolha e despejei o copo na garrafa, que bebi.
Apanhei a quinta rolha da pia, despejei o copo no resto e bebi a garrafa, por exceção.
Agarrei o copo da sexta pia, puxei o uísque e bebi a garrafa, com exceção da rolha.
Tirei a rolha seguinte, despejei a pia dentro da garrafa, arrolhei o copo e bebi por exceção.
Quando esvaziei todas as garrafas, menos duas, que escondi atrás do banheiro, para lavar a boca amanhã cedo, resolvi conferir o serviço que tinha feito, de acordo com as ordens da minha mulher, a quem não gosto de contrariar, pelo mau gênio que tem.
Segurei então a casa com uma mão e com a outra contei direitinho as garrafas, rolhas, copos e pias, que eram exatamente trinta e nove. Quando a casa passou mais uma vez pela minha frente, aproveitei para recontar tudo e deu noventa e três, o que confere, já que todas as coisas no momento estão ao contrário.
Para maior segurança, vou conferir tudo mais uma vez, contando todas as pias, rolhas, banheiros, copos, casas e garrafas, menos aquelas duas que escondi e acho que não vão chegar até amanhã, porque estou com uma sede louca ..."

"Eu tinha doze garrafas de uísque na minha adega e minha mulher me disse para despejar todas na pia, porque se não...
- Assim seja! Seja feita a vossa vontade, disse eu, humildemente. E comecei a desempenhar, com religiosa obediência, a minha ingrata tarefa.
Tirei a rolha da primeira garrafa è despejei o seu conteúdo na pia, com exceção de um copo, que bebi.
Extraí a rolha da segunda garrafa e procedi da mesma maneira, com exceção de um copo, que virei.
Arranquei a rolha da terceira garrafa e despejei o uísque na pia, com exceção de um copo, que empinei.
Puxei a pia da quarta rolha e despejei o copo na garrafa, que bebi.
Apanhei a quinta rolha da pia, despejei o copo no resto e bebi a garrafa, por exceção.
Agarrei o copo da sexta pia, puxei o uísque e bebi a garrafa, com exceção da rolha.
Tirei a rolha seguinte, despejei a pia dentro da garrafa, arrolhei o copo e bebi por exceção.
Quando esvaziei todas as garrafas, menos duas, que escondi atrás do banheiro, para lavar a boca amanhã cedo, resolvi conferir o serviço que tinha feito, de acordo com as ordens da minha mulher, a quem não gosto de contrariar, pelo mau gênio que tem.
Segurei então a casa com uma mão e com a outra contei direitinho as garrafas, rolhas, copos e pias, que eram exatamente trinta e nove. Quando a casa passou mais uma vez pela minha frente, aproveitei para recontar tudo e deu noventa e três, o que confere, já que todas as coisas no momento estão ao contrário.
Para maior segurança, vou conferir tudo mais uma vez, contando todas as pias, rolhas, banheiros, copos, casas e garrafas, menos aquelas duas que escondi e acho que não vão chegar até amanhã, porque estou com uma sede louca ..."

Wednesday, September 28, 2005
Só é grande se sofrer?
por R. Balbi
"Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Qua nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos me encaminham pra você [...]"
- Tom Jobim, "Eu não existo sem você".
Só é grande se sofrer? A arte vinda da matéria sofrida, enferma de amor, carente, perdida, miserável e desprezada é superior à arte cujo sumo, cuja essência é a felicidade? É estéril e superficial se feliz, vinda do sorriso, do gozo, do amor correspondido e da boa ventura?
É certo que ninguém é feliz, não há existência apenas na felicidade, não haveria felicidade se não houvesse sofrimento; um não existe sem o outro. É certo também que ninguém é triste. São duas cores distintas que vestimos em certos episódios da vida. Enquanto gastamos uma, a outra é lavada e tingida novamente, num ciclo interminável.
Os sofridos, porém, parecem pensar que no sofrimento há mais tato, há mais arte. O miserável está no chão, jogado, mulambo e acomodado no canto escuro, recolhendo com as mãos as próprias entranhas esparramadas no asfalto molhado de chuva, enquanto o feliz está nas nuvens, andando a um palmo do chão, vendo poesia até mesmo na água que transborda dos bueiros. O triste acha o feliz um tolo.
"[...] me diz se assim esta em paz
achando que sofrer é amar demais [...]"
- Los Hermanos, "Tá bom".
Pois o sofrimento é ilusão, tanto quanto a felicidade. Ambos produzem arte de igual valor. O que sofre precisa crer que seu sofrimento redime. Precisa acreditar que o que ele passa é glorificante, que lava a alma e purifica, que é digno dos vates, dos mitos e das grandes sagas do imaginário humano. Precisa disso para aceitar seu carma, para ouvir de si a própria condição. Cospe na felicidade porque dela está muito longe, apesar dos braços esticados tentando alcançá-la, sem perceber. Julga raza a arte vinda da boa sorte porque dela não goza. O que faz sentido e brilha para quem está feliz, gera repulsa e pena para os miseráveis, assim como alguns pobres que dizem detestar a riqueza; assim como a moral cristã detestou a reação e o poder. É também um fechar de olhos ou, no mínimo, um prisma tão torto quanto o de quem vê beleza e potência em absolutamente tudo.
O tristonho precisa notar, porém, que sua vida é, na verdade, infinitamente mais insignificante que o mito. Que seu sofrimento-tragédia é tão razo quanto a alegria-ópio, que sua própria história não pode ser tão levada a sério. Os dramas de amor são todos ilusões, assim como suas alegrias. Não há amor maior que a vida, não há amor além da necessidade de amar. O casal de namorados que, por algum motivo entrou em sofrimento, precisa engrandecer o amor que tem para aguentar viver. Precisa fazê-lo pesar mais na balança, e cria a ilusão de que o que degenera, na verdade, aumenta. Assim é criada a falácia do grande amor que é grande porque é triste.
A felicidade é inatingível. Ninguém é feliz o tempo inteiro. No máximo sorve vestígios vindos do mundo ideal, longe e alto no céu. Há beleza em buscar felicidade, é sadio aproveitar o amar, existe gozo em toda alegria vinda daí. A doença está em louvar o trágico mais do que o doce, está em renunciar à busca do alegre em favor da contemplação do lúgubre, é diminuir o alegre em relação ao nefasto. A única saída estética da tragédia é a comédia, uma necessita, absolutamente, da outra. O herói possível, palpável, nota a pequenez do próprio sofrer e parte em busca de novas aventuras, de novos sorrisos, de novas lágrimas.
O sofrer é o pequeno que faz pose de grande, mas sofrimento grande é megalomania.
Todo pequeno é folgado.
"Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Qua nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos me encaminham pra você [...]"
- Tom Jobim, "Eu não existo sem você".
Só é grande se sofrer? A arte vinda da matéria sofrida, enferma de amor, carente, perdida, miserável e desprezada é superior à arte cujo sumo, cuja essência é a felicidade? É estéril e superficial se feliz, vinda do sorriso, do gozo, do amor correspondido e da boa ventura?
É certo que ninguém é feliz, não há existência apenas na felicidade, não haveria felicidade se não houvesse sofrimento; um não existe sem o outro. É certo também que ninguém é triste. São duas cores distintas que vestimos em certos episódios da vida. Enquanto gastamos uma, a outra é lavada e tingida novamente, num ciclo interminável.
Os sofridos, porém, parecem pensar que no sofrimento há mais tato, há mais arte. O miserável está no chão, jogado, mulambo e acomodado no canto escuro, recolhendo com as mãos as próprias entranhas esparramadas no asfalto molhado de chuva, enquanto o feliz está nas nuvens, andando a um palmo do chão, vendo poesia até mesmo na água que transborda dos bueiros. O triste acha o feliz um tolo.
"[...] me diz se assim esta em paz
achando que sofrer é amar demais [...]"
- Los Hermanos, "Tá bom".
Pois o sofrimento é ilusão, tanto quanto a felicidade. Ambos produzem arte de igual valor. O que sofre precisa crer que seu sofrimento redime. Precisa acreditar que o que ele passa é glorificante, que lava a alma e purifica, que é digno dos vates, dos mitos e das grandes sagas do imaginário humano. Precisa disso para aceitar seu carma, para ouvir de si a própria condição. Cospe na felicidade porque dela está muito longe, apesar dos braços esticados tentando alcançá-la, sem perceber. Julga raza a arte vinda da boa sorte porque dela não goza. O que faz sentido e brilha para quem está feliz, gera repulsa e pena para os miseráveis, assim como alguns pobres que dizem detestar a riqueza; assim como a moral cristã detestou a reação e o poder. É também um fechar de olhos ou, no mínimo, um prisma tão torto quanto o de quem vê beleza e potência em absolutamente tudo.
O tristonho precisa notar, porém, que sua vida é, na verdade, infinitamente mais insignificante que o mito. Que seu sofrimento-tragédia é tão razo quanto a alegria-ópio, que sua própria história não pode ser tão levada a sério. Os dramas de amor são todos ilusões, assim como suas alegrias. Não há amor maior que a vida, não há amor além da necessidade de amar. O casal de namorados que, por algum motivo entrou em sofrimento, precisa engrandecer o amor que tem para aguentar viver. Precisa fazê-lo pesar mais na balança, e cria a ilusão de que o que degenera, na verdade, aumenta. Assim é criada a falácia do grande amor que é grande porque é triste.
A felicidade é inatingível. Ninguém é feliz o tempo inteiro. No máximo sorve vestígios vindos do mundo ideal, longe e alto no céu. Há beleza em buscar felicidade, é sadio aproveitar o amar, existe gozo em toda alegria vinda daí. A doença está em louvar o trágico mais do que o doce, está em renunciar à busca do alegre em favor da contemplação do lúgubre, é diminuir o alegre em relação ao nefasto. A única saída estética da tragédia é a comédia, uma necessita, absolutamente, da outra. O herói possível, palpável, nota a pequenez do próprio sofrer e parte em busca de novas aventuras, de novos sorrisos, de novas lágrimas.
O sofrer é o pequeno que faz pose de grande, mas sofrimento grande é megalomania.
Todo pequeno é folgado.
Tuesday, September 20, 2005
Terra de Fartas Brisas
por R. Balbi
Pedro arrumou os cabelos lentamente com as mãos num rápido movimento, apertou os olhos ao olhar pela fresta da cortina - vendo os raios de Sol flamulando no espaço azul – fechou a mala e levantou-se do chão com suas velhas botas. Os primeiros passos pesaram tanto com o suspiro que deu que hesitou em partir, mas partiu.
O simples ato de dar as costas foi como olhar do alto de um desfiladeiro, ver o mundo miúdo lá embaixo, sentir o vento e a vertigem sugando a alma e se deixar levar, pela vida, ao salto.
Tal qual uma interminável queda, deu vertigem o caminho que fez até o trem pelo solo rachado e seco, sob o severo vênus quente daquela cidade do oeste que jamais fora agraciada com um pequeno sopro de vento. Tudo parecia imóvel até o trem aparecer, como uma potente lata de ferro bruta e feroz como um touro, bufando fumaça sem cogitar mudar seu rumo uma lasca. A ebulição só teve fim quando a locomotiva parou e se moldou ao mundo estático à sua volta, conforme a poeira e a foligem iam descendo e o cheiro de queimado modificava levemente a experiência sensorial do local.
A locomotiva viera só pra ele. Todos sabiam que naquela cidade não passava trem há anos. Nenhum passageiro saltou na estação e somente Pedro e seu espírito encardido subiram a pequena escada que levava ao interior do vagão de passageiros.
A cidade expelia ele como um furúnculo vertendo pus para fora do corpo. Sentia-se exatamente assim. Pus escorrendo na pele. Chorou e assoou o nariz num pedaço de papel onde podia-se ver rabiscado o esboço de um poema que jamais foi escrito e, por esta razão, jamais encontrou seu destino. Amassou e jogou pela janela, enquanto o lugar preparava-se para um último espasmo que faria novamente a locomotiva bufar furiosa e partir.
E lá ficou o poema esboçado, amassado num pedaço de papel sujo de catarro, jogado ao Sol quente, contemplando a beleza que não vingou. Terminou em solo árido.
Pedro não. Foi procurar a calma em terra de fartas brisas e achou.
Pedro arrumou os cabelos lentamente com as mãos num rápido movimento, apertou os olhos ao olhar pela fresta da cortina - vendo os raios de Sol flamulando no espaço azul – fechou a mala e levantou-se do chão com suas velhas botas. Os primeiros passos pesaram tanto com o suspiro que deu que hesitou em partir, mas partiu.
O simples ato de dar as costas foi como olhar do alto de um desfiladeiro, ver o mundo miúdo lá embaixo, sentir o vento e a vertigem sugando a alma e se deixar levar, pela vida, ao salto.
Tal qual uma interminável queda, deu vertigem o caminho que fez até o trem pelo solo rachado e seco, sob o severo vênus quente daquela cidade do oeste que jamais fora agraciada com um pequeno sopro de vento. Tudo parecia imóvel até o trem aparecer, como uma potente lata de ferro bruta e feroz como um touro, bufando fumaça sem cogitar mudar seu rumo uma lasca. A ebulição só teve fim quando a locomotiva parou e se moldou ao mundo estático à sua volta, conforme a poeira e a foligem iam descendo e o cheiro de queimado modificava levemente a experiência sensorial do local.
A locomotiva viera só pra ele. Todos sabiam que naquela cidade não passava trem há anos. Nenhum passageiro saltou na estação e somente Pedro e seu espírito encardido subiram a pequena escada que levava ao interior do vagão de passageiros.
A cidade expelia ele como um furúnculo vertendo pus para fora do corpo. Sentia-se exatamente assim. Pus escorrendo na pele. Chorou e assoou o nariz num pedaço de papel onde podia-se ver rabiscado o esboço de um poema que jamais foi escrito e, por esta razão, jamais encontrou seu destino. Amassou e jogou pela janela, enquanto o lugar preparava-se para um último espasmo que faria novamente a locomotiva bufar furiosa e partir.
E lá ficou o poema esboçado, amassado num pedaço de papel sujo de catarro, jogado ao Sol quente, contemplando a beleza que não vingou. Terminou em solo árido.
Pedro não. Foi procurar a calma em terra de fartas brisas e achou.
Monday, September 05, 2005
Encerralodo
por R. Balbi
Saudade
Sentado ao teu lado
já sinto assim de olhar
vigiando teu sono
calado
saudades de ter o que não podes mais dar
O que fazer
além de suspirar
para que tudo isto se esvaia
junto aos teus sonhos assim que acordares
Tão logo a tarde caia
(E afunde)
Afunde
Afunde
bem fundo
Borbulhe em lodo espesso
profundo
Faça lôdicas bolhas
Voe nadando dentre as malhas de musgo
pro fundo
Nade voando fazendo bolinhas
Mas não retorne, fique
Lodifique, transcenda
Esqueça, a fundo
desapareça.
Felicidade
Há felicidade lôdica
É feliz lôda, lúdica
Lida assim, ludovica
Lauripendiando melinda
Em jogo de ludo real
Porque tudo lóda
Feliz um dia
Espirrando em tua pele
A mais derradeira
Linda faceira
E verde alegria
Chuva
Furnículo bravo de Santas Môndegas
Mórvias rotulam espináfrios valdes
Deofinal corre gritando com as mãos na boca
Matei um homem, pobre de mim!
Calmou-se tâo logo pôde, a podar avalônicas almas
Sujo de sangue escarlate contenido de estar
Banhado em lágrimas de zebra, girafas e curiangos
Balbou saliva, balbuciou choros e entoou canções gregas
De repúdio ao senhor Silva Jardim do Éden sem dentes
Que em palanque surgiu e enunciou toda a verdade
Mataste a ti mesmo, homem! É tu que jazes ali, tolo que és!
Deofinal cuspiu para cima arrasado e viu cair meteoro salítreo malvês
Chuva verde sobre sua fronte
Na beira do rio
Ajoelhou e chorou.
Saudade
Sentado ao teu lado
já sinto assim de olhar
vigiando teu sono
calado
saudades de ter o que não podes mais dar
O que fazer
além de suspirar
para que tudo isto se esvaia
junto aos teus sonhos assim que acordares
Tão logo a tarde caia
(E afunde)
Afunde
Afunde
bem fundo
Borbulhe em lodo espesso
profundo
Faça lôdicas bolhas
Voe nadando dentre as malhas de musgo
pro fundo
Nade voando fazendo bolinhas
Mas não retorne, fique
Lodifique, transcenda
Esqueça, a fundo
desapareça.
Felicidade
Há felicidade lôdica
É feliz lôda, lúdica
Lida assim, ludovica
Lauripendiando melinda
Em jogo de ludo real
Porque tudo lóda
Feliz um dia
Espirrando em tua pele
A mais derradeira
Linda faceira
E verde alegria
Chuva
Furnículo bravo de Santas Môndegas
Mórvias rotulam espináfrios valdes
Deofinal corre gritando com as mãos na boca
Matei um homem, pobre de mim!
Calmou-se tâo logo pôde, a podar avalônicas almas
Sujo de sangue escarlate contenido de estar
Banhado em lágrimas de zebra, girafas e curiangos
Balbou saliva, balbuciou choros e entoou canções gregas
De repúdio ao senhor Silva Jardim do Éden sem dentes
Que em palanque surgiu e enunciou toda a verdade
Mataste a ti mesmo, homem! É tu que jazes ali, tolo que és!
Deofinal cuspiu para cima arrasado e viu cair meteoro salítreo malvês
Chuva verde sobre sua fronte
Na beira do rio
Ajoelhou e chorou.
Saturday, August 27, 2005
Mais Lodo
por Balbi
Mais lodo para vocês, agora peças selecionadas de momentos lodistas distintos. Reparem que alguns deles, apesar de serem de minha autoria, não passavam das primeiras manifestações de Rufus, em idos tempos em que ainda não tinha percebido inteiramente sua existência.
Delíriuns
(Balbi)
Nos bosques, delírio
Sátiros aos meus ouvidos
E ninfas aos meus pés
Muito vinho em minhas entranhas
E borboletas em meu estômago
O que ouve, Ananias
Nossos olhos estão mudados
Colocaram-me amoras no lugar das vistas
E tudo que vejo agora é doce.
Entorpecido
(Balbi)
Ela é tudo ao mesmo tempo
Uma virgem
Uma musa
Uma sereia
Uma prostituta
Um pouco estranha, tudo isso junto
E sabe o que é estranho nela? Seu sorriso...
Um pouco bobo
Um pouco dúbio
Um pouco cínico
Um pouco sádico
Uma total estranha
Nunca sei se sorri para mim
Ou se ela ri de mim
Só sei que aqueles dentes
Me deixam entorpecido
A Camisa
(Balbi)
Oh alva camisa divina
Do candelário tecido que ilumina
A bela face da ruiva que menina
Estupefaz, perneia em glória
Fazes parte dos arthurianos contos
De beleza mística que atravessa anos
Submetendo tiranos todos teus servos
Critérios de seleção à criva cevada
Penso em ti olhando azulejos
De poemas pintados em paredes tuas
Lord Jim penso eu embasbacado
Era um nobre sábio velho safado
Cujo cemitério é algo divino
Que tem em suas marmórias lápides
Imagino eu sarfeito de troços
Luas nuas, musas ninfas e inglesas sálvias
E quero eu morrer em teus fios
Tecidos de máquina trofeita de egos
De deusas lindas que se empoleiram nádegas
Em mim, lodo ipanêmico envolto em suspiros.
Lindas Contradições
(Balbi)
Crianças são tão inocentes
Que de tão inocentes
Chegam a ser cruéis
Dodô é tão inconstante
Que de tão inconstante
Chega a ser previsível
Garrincha era tão burro
Que de tão burro
Chegava a ser genial
E o Lodo é tão ruim
Que de tão ruim
Chega a ser bom
Amor sem Braços
(Balbi)
Gosto dela assim mesmo
E daí que ela não tenha braços?
Ela é linda do jeito dela
E posso fazer várias coisas
Gosto de lhe jogar objetos
Sem que possa se defender
Empurro ela no chão
Sem que possa se levantar
Gosto de correr dela e dizer
Vem me pegar
E ela sai correndo atrás de mim
Sem braços, há há há
O ruim é que ela não pode cozinhar
Nem ao menos ligar pro restaurante
E eu fico puto de raiva
Quando tenho que ajudá-la no banheiro
Função Social da Carne
(Balbi)
Eu era apaixonado
Por uma oferecida
E já que não poderia ser inteira só minha
Dividi ela em quatro
Pra mim e mais três
Pena que ninguém quis ficar
Nem com a cabeça
Nem com meia boceta.
Mais lodo para vocês, agora peças selecionadas de momentos lodistas distintos. Reparem que alguns deles, apesar de serem de minha autoria, não passavam das primeiras manifestações de Rufus, em idos tempos em que ainda não tinha percebido inteiramente sua existência.
Delíriuns
(Balbi)
Nos bosques, delírio
Sátiros aos meus ouvidos
E ninfas aos meus pés
Muito vinho em minhas entranhas
E borboletas em meu estômago
O que ouve, Ananias
Nossos olhos estão mudados
Colocaram-me amoras no lugar das vistas
E tudo que vejo agora é doce.
Entorpecido
(Balbi)
Ela é tudo ao mesmo tempo
Uma virgem
Uma musa
Uma sereia
Uma prostituta
Um pouco estranha, tudo isso junto
E sabe o que é estranho nela? Seu sorriso...
Um pouco bobo
Um pouco dúbio
Um pouco cínico
Um pouco sádico
Uma total estranha
Nunca sei se sorri para mim
Ou se ela ri de mim
Só sei que aqueles dentes
Me deixam entorpecido
A Camisa
(Balbi)
Oh alva camisa divina
Do candelário tecido que ilumina
A bela face da ruiva que menina
Estupefaz, perneia em glória
Fazes parte dos arthurianos contos
De beleza mística que atravessa anos
Submetendo tiranos todos teus servos
Critérios de seleção à criva cevada
Penso em ti olhando azulejos
De poemas pintados em paredes tuas
Lord Jim penso eu embasbacado
Era um nobre sábio velho safado
Cujo cemitério é algo divino
Que tem em suas marmórias lápides
Imagino eu sarfeito de troços
Luas nuas, musas ninfas e inglesas sálvias
E quero eu morrer em teus fios
Tecidos de máquina trofeita de egos
De deusas lindas que se empoleiram nádegas
Em mim, lodo ipanêmico envolto em suspiros.
Lindas Contradições
(Balbi)
Crianças são tão inocentes
Que de tão inocentes
Chegam a ser cruéis
Dodô é tão inconstante
Que de tão inconstante
Chega a ser previsível
Garrincha era tão burro
Que de tão burro
Chegava a ser genial
E o Lodo é tão ruim
Que de tão ruim
Chega a ser bom
Amor sem Braços
(Balbi)
Gosto dela assim mesmo
E daí que ela não tenha braços?
Ela é linda do jeito dela
E posso fazer várias coisas
Gosto de lhe jogar objetos
Sem que possa se defender
Empurro ela no chão
Sem que possa se levantar
Gosto de correr dela e dizer
Vem me pegar
E ela sai correndo atrás de mim
Sem braços, há há há
O ruim é que ela não pode cozinhar
Nem ao menos ligar pro restaurante
E eu fico puto de raiva
Quando tenho que ajudá-la no banheiro
Função Social da Carne
(Balbi)
Eu era apaixonado
Por uma oferecida
E já que não poderia ser inteira só minha
Dividi ela em quatro
Pra mim e mais três
Pena que ninguém quis ficar
Nem com a cabeça
Nem com meia boceta.







